sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Gagueira real na telona

Muitas angústias podem cercar aqueles que estão, por algum motivo, impedidos de dizer algo importante. E tudo só tende a piorar quando se tem a consciência da relação que existe entre o discurso e a cura, na medida em que se acredita que o ato de falar, revelar um sentimento ou uma perspectiva, pode ser primordial para a boa condução de um relacionamento, independente do seu nível. A encruzilhada do Duque de York (Colin Firth), porém, é ainda mais tortuosa. O filho do Rei George, de uma Inglaterra prestes a entrar na Segunda Guerra Mundial, busca sua cura, pessoal e física, soterrada sob um detalhe que se torna toda a complexidade de “O Discurso do Rei” (The King´s Speech, Inglaterra, 2010): uma gagueira.

Numa atuação primorosa de Colin Firth (que já recebeu o Globo de Ouro pelo papel e é dado como nome certo também no Oscar), o personagem do Duque de York, que se torna o Rei George VI após a morte do seu pai e a renúncia do seu irmão mais velho, surge como uma espécie de experiência aos olhos do terapeuta Lionel Logue (em atuação igualmente brilhante de Geoffrey Rush). Acostumado a curar a timidez e a consequente gagueira de vários plebeus, através de um tipo de terapia bastante alternativa que envolve fazer gritar pela janela, rolar pelo chão do consultório e invadir, com a destreza psicanalítica, o íntimo dos seus pacientes, Lionel Logue se encanta com o desafio de tratar um membro da realeza. E vai ser pela condução do relacionamento, de início estranho e posteriormente cúmplice, desses dois personagens - consequência da química incrível entre os dois atores - que a grandiosidade do filme se revela.

O pavor em falar em público, junto à necessidade de acalmar uma nação que está prestes a viver dias difíceis diante da guerra anunciada, gera o drama do personagem de Firth. Através dos métodos terapêuticos de Logue, descobrimos que a raiz do problema do novo rei se esconde dentro da sua estrutura familiar e o acompanhar desde a infância. Problema que acompanharia, igualmente, qualquer outro plebeu. Mas o jogo de poder e interesses que corre por dentro de um clã real, somado ao seu orgulho pessoal, torna as angústias daquele personagem ainda mais curiosas.

Outro pilar do filme, ainda que de maneira tímida, está na figura da Rainha Elizabeth. Vivida pela atriz e também indicada ao Oscar, Helena Bohman Carter, a esposa de George VI vivencia todo o drama do marido ao seu lado, como uma espécie de suporte que nos lembra, através da fraqueza, o quão humano pode ser um rei. A tríade formada por Firth, Rush e Bohamn Carter também acena que “O Discurso do Rei” é, tecnicamente, um grande filme de elenco. A direção correta de Tom Hooper tem muito mais que agradecer aos atores do que o contrário.

O que envolve o “O Discurso do Rei” como um grande filme, e um dos fortes concorrentes à estatueta dourada de melhor filme, reside justamente no charme, ora irônico, ora humanístico, das suas personagens. Entre as afetações da nobreza e o dra­ma de qualquer um de nós.

Talles Colatino

Fonte: Folha de PE



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