segunda-feira, 29 de julho de 2013

Tecnologia 3D começa a dar sinais de saturação




Quando o longa Avatar estreou, no final de 2009, a impressão que se tinha era de que o cinema nunca mais seria o mesmo. Dirigido e idealizado por James Cameron, o filme deu um passo adiante no uso da tecnologia em uma produção, com a mistura de imagens de atores reais em 3D e composições de cenários e personagens feitas em computadores. O resultado foi um filme aclamado pela crítica por sua beleza e, ao mesmo tempo, bem recebido pelo público, que o transformou na maior bilheteria de todos os tempos: 2,7 bilhões de dólares, no total. O impacto se deu pela maneira original como Cameron usava o 3D – ele criou equipamentos próprios para isso – e fazia o espectador se sentir dentro do filme. Daí se explicam as estatísticas de Avatar, que somente no fim de semana de estreia nos Estados Unidos teve 71% de sua arrecadação oriunda das salas que exibiam cópias em três dimensões.

As produções que estrearam na sequência seguiram o caminho mostrado por James Cameron. De acordo com dados do site Box Office Mojo. Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, conseguiu 70% de sua bilheteria de estreia, de 116,1 milhões de dólares, com as exibições em 3D. No caso de Tron: O Legado, de Joseph Kosinski, a fatia do 3D foi de surpreendentes 82% da arrecadação de 44 milhões de dólares no fim de semana de estreia. A aposta na tecnologia era tamanha que até diretores experientes e consagrados como Martin Scorsese (e seu Hugo, indicado ao Oscar de melhor filme em 2012) embarcaram nas três dimensões. Havia quem imaginasse que o cinema jamais abriria mão do 3D.

O que se vê hoje, porém, é uma saturação da tecnologia. Entre junho e julho, no intervalo de duas semanas, duas produções se sucederam no posto de pior estreia em 3D da história. Somente 27% da arrecadação da animação Meu Malvado Favorito 2 no primeiro fim de semana de exibição, nos EUA, veio das salas 3D. Quinze dias antes, outra animação, Universidade Monstros, fez 31% de sua bilheteria com cópias que exigem óculos especiais. E o mau desempenho do 3D não se restringe a animações. Na estreia do novo longa de Brad Pitt,Guerra Mundial Z, apenas 34% dos ingressos comprados eram para sessões em 3D, resultado pouco melhor que o de O Grande Gatsby, com 33%.

Se a tecnologia começou a dar sinais de cansaço em 2012, com longas como Madagascar 3: Os Procurados e sua fatia 45% para o 3D, 2013 parece ser o ano da debacle. 

Causas da queda – A obrigação de usar óculos nem sempre limpos ou confortáveis, a qualidade por vezes suspeita do 3D e, como consequência, o nem sempre compensador investimento nas sessões com a tecnologia, mais caras, são alguns dos fatores que vêm jogando contra a tecnologia.

A má utilização do 3D se dá pelo que o diretor James Cameron, o criador do fenômeno Avatar, chama de automatismo dos estúdios. Em busca de um caminho fácil para fazer dinheiro, muitas produtoras apostam na conversão pura e simples de filmes feitos em 2D para longas em três dimensões. A técnica de Cameron, ao contrário, consiste em filmar toda a produção em 3D, o que dá uma sensação maior de profundidade ao longa. E custa mais.

Além de um efeito superficial, o processo de conversão, utilizado em filmes como Fúria de Titãs (2010) e O Último Mestre do Ar (2010), pode causar uma piora significativa na qualidade das imagens, uma vez que o material gravado em duas dimensões nem sempre se adequa ao formato de três. “O motivo por que digo que Hollywood não está fazendo direito é que o processo se tornou automático”, disse James Cameron, citando outros dois exemplos da criticada conversão, durante o fórum americano de tecnologia TagDF, no começo de julho. “O Homem de Aço e Homem de Ferro 3 não precisavam estar em 3D. Se você gastar 150 milhões de dólares em efeitos visuais, seu filme já vai ser espetacular.”

O 3D mal feito afugenta espectadores, para quem o boca a boca ainda é a melhor forma de publicidade, de acordo com Humberto Neiva, professor de distribuição e exibição do curso de Cinema da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). “O público se sente ludibriado por pagar a mais para ver um filme em três dimensões sem qualidade”, diz.

Segundo o professor, o baixo faturamento de animações como Meu Malvado Favorito 2 e Universidade Monstros também pode estar relacionado ao público que esses filmes atingem, o infantil. “Para crianças é mais difícil a utilização dos óculos 3D, elas são mais inquietas”, disse. De olho nesse problema, pesquisadores vêm tentando desenvolver um sistema que dispense a utilização do acessório.

O eterno retorno – Anunciada por muitos como definitiva ao surgir, alguns anos atrás, a onda do 3D no cinema iniciada por Avatar não é a primeira e não será a última. A mais antiga moda da tecnologia de que se tem notícia aconteceu na década de 1950, quando até Alfred Hitchcock aderiu ao recurso – ele o empregou em Disque M para Matar (1954). Na época, porém, a tecnologia era incipiente e apresentava dificuldades técnicas, segundo Pedro Butcher, editor do site especializado FilmeB. Rodados em películas de 35 milímetros, os longas eram instáveis e causavam desconforto ao espectador quando se acrescentava o 3D.

Com a digitalização dos filmes, o problema foi resolvido e os estúdios aprenderam a gerrenciar melhor o recurso. “No começo do 3D, havia uma euforia, um pensamento de que o recurso seria usado para filmes de todos os gêneros, até comédias românticas. Hoje, se sabe que ele funciona melhor em produções de ação, fantasia e animações”, diz Butcher.

Brasil ainda curte – As dificuldades que o mercado exibidor americano enfrenta com o 3D não se repetem por aqui. Segundo dados da empresa de pesquisas Rentrak Brasil, os melhores resultados de três dimensões no ano passado foram os de Os Vingadores (56,1% da receita total) e A Era do Gelo 4 (48,2%), ambos superados pelo melhor resultado deste ano. O Homem de Ferro teve 64% da sua arrecadação proveniente de sessões com a tecnologia. O aumento foi percebido pela rede Kinoplex, cujas salas 3D foram responsáveis por 24% do público no primeiro semestre, ante 22% no mesmo período de 2012, segundo Patricia Cotta, gerente de marketing da rede.

Para o professor Humberto Neiva, isso se deve ao sentimento de novidade que o 3D traz ao público brasileiro, ao contrário do americano, que está acostumado com o recurso. O maior investimento em salas 3D também influencia, uma vez que amplia a oferta. Oferta que ainda não chegou ao seu limite. Segundo Pedro Butcher, ainda há espaço para o cinema 3D crescer no país. Apenas 747 das mais de 2.500 salas brasileiras estão equipadas para exibir filmes em três dimensões, mas até o final de 2015 o circuito estará completamente digitalizado.

O reduzido número de salas 3D foi apontado por Mariana Caltabiano, diretora e produtora de Brasil Animado (2011), a primeira produção brasileira em 3D, como um dos maiores entraves para a decolagem de longas tupiniquins que se utilizem do recurso. Ela lembra que Brasil Animado, um passeio nas telas por diversos pontos turísticos brasileiros, ficou apenas seis semanas em cartaz no grande circuito porque logo precisava ser substituído por outros filmes. Mas, a bem da verdade, o filme era um fiasco – mais um caso de 3D mal utilizado.

Fonte: Veja

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