segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Androides a serviço do homem só vão virar realidade em 50 anos


“Estou pronta para servir. O que deseja?”, cumprimenta Minerva. A voz lembra as mensagens ouvidas em alto-falantes no aeroporto, e o rosto é o de uma boneca muito cara. O diálogo continua, e a máquina humanoide responde com frases polidas, como “É bom acordar com o pé direito, não é mesmo?”. Diplomática, Minerva sabe conduzir uma conversa com educação, e busca suas respostas em um banco de mais de 50 mil sequências de diálogos com base no horário e nos papos que bateu ultimamente.


Ela não é tão dinâmica quanto C3PO, o robô da série Guerra nas estrelas, que se diz fluente em mais de 6 milhões de formas de comunicação, mas dificilmente duas conversas com ela serão iguais – e isso é mais do que se pode esperar de muitas pessoas. “Você não vai discutir filosofia, é só bater um papo. Aquela conversinha de elevador dá para fazer de forma bastante razoável”, descreve Marcos Barretto, coordenador do Laboratório de Robôs Sociáveis da Faculdade Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e um dos criadores da mulher mecânica.

Por enquanto, Minerva ainda tropeça em algumas respostas com um educado “não entendi”, como reagiria qualquer pessoa que é apresentada a um novo assunto. Afinal, um robô não conta com os anos de aprendizado que uma pessoa tem desde a primeira infância. Todas as convenções sociais, as regras de etiqueta e a adaptação das respostas de acordo com o contexto precisam ser ensinadas. No caso da robô feita pela equipe da Poli-USP, o que ela sabe foi programado manualmente por uma força-tarefa de alunos, com base em conversas reais e em referências de diálogos.

“No final, é isso, um tijolinho de cada vez para fazer a casa”, resume Barretto. O pesquisador estima ao menos mais uma década até que possamos conversar com as primeiras máquinas dotadas da capacidade de interpretar perguntas e formular respostas. No futuro, especula o especialista, podemos ter companhias mecânicas como no filme Frank e o robô, em que uma máquina se torna cuidadora de um idoso. Ou, ainda, sermos atendidos por um simpático porteiro eletrônico que fala sobre o tempo, conta piadas ou comenta o último jogo de futebol.

Evolução lenta

Traduzir para a linguagem das máquinas as sutilezas do diálogo humano é uma difícil tarefa da computação afetiva, o ramo da robótica que tem o objetivo de dar a um sistema eletrônico a capacidade de reagir de forma apropriada a uma pergunta ou comentário. Até há pouco tempo, relações entre homem e máquina como essa só existiam no imaginário popular, e eram retratadas em diversos níveis no cinema: desde o limitado robô B9 da série dos anos 1960 Perdidos no espaço (que praticamente se limitava a gritar “perigo!” e a dizer “isso não computa”), a androides perfeitos como o menino David, de A. I. – Inteligência Artificial, capaz de simular o amor de um filho.

Um cenário mais realista, de acordo com a descrição de especialistas, estaria no meio-termo. No futuro próximo, devemos nos deparar com balconistas em repartições como o assistente que atende o operário Max no filme Elusium. Ao notar que o personagem interpretado por Matt Damon está nervoso, a máquina lhe oferece um medicamento, e depois teme por um ataque. A conversa com o robô, no entanto, é fria: o atendente eletrônico se recusa a argumentar com Max e ainda tem dificuldades em detectar o sarcasmo na voz do humano.

O velho sonho de dotar robôs de inteligência foi descrito de forma exemplar em 1950 pelo escritor Isaac Asimov, autor do consagrado livro Eu, robô. Na série de contos que mostram o desenvolvimento das máquinas inteligentes, o russo descreve os primeiros modelos de robôs como grosseiros assistentes mudos e encarregados de tarefas simples, como distrair uma criança. Levariam anos até que eles evoluíssem para operários cegos pelo raciocínio lógico de seus cérebros positrônicos e depois chegassem até mesmo a desenvolver preferências próprias, como o gosto por livros. Somente muito depois eles adquiririam sensibilidade suficiente para se tornarem os atenciosos cuidadores de toda a humanidade.

O especialista em robótica da organização internacional Instituto de Engenharia Elétrica e Eletrônica (IEEE) Antonio Espingardeiro assegura que essa evolução realmente deve ser lenta, e que robôs idênticos aos humanos não devem fazer parte da nossa vida tão cedo. “Não há robôs humanoides nas ruas e, lamento desapontar, mas esses robôs não serão vistos nos próximos 30 ou 40 anos”, avalia. “Porque nós temos 50 anos de computação, e só agora um computador começa a ouvir, começa a ler, começa a falar, começa a ver”, enumera Espingardeiro.

Variedade

O cenário, prevê Espingardeiro, aponta para um futuro com robôs “de muitas morfologias, de muitas formas, de muitas escalas, de muitos tipos de locomoção”. Essa variedade tecnológica pode ser parecida com a retratada no filme Wall-e, em que uma colônia espacial é mantida por diversos robôs em formatos de objetos automatizados e por máquinas especializadas em tarefas como limpar o chão, maquiar e, claro, recolher o lixo, como o próprio personagem que dá nome ao longa.

Os equipamentos que têm cara de máquina, não de gente, se multiplicam na maior velocidade que as linhas de montagem permitem. O mercado já oferece uma variedade de pequenas máquinas automáticas que fazem tarefas simples da casa, como limpar janelas ou cuidar do jardim. Programar a cafeteira, a máquina de pão ou a panela de arroz já se tornou rotina. A empresa iRobots, exemplo mais próximo que temos da Skynet hoje em dia, já vendeu mais de 6,5 milhões de unidades do aspirador de pó autônomo Roomba, um disco que passeia sozinho pela casa, encontrando e sugando a sujeira do chão.

Para o especialista em robótica Marco Antonio Meggiolaro, professor de engenharia mecânica do CTC da PUC-Rio, a tendência é que a própria casa se torne um grande robô, mais barato e eficiente do que a figura de servente mecânico retratada há décadas em filmes e séries de TV. “Em vez de gastar bastante dinheiro para ter um robô no formato de um ser humano, executando várias tarefas, uma de cada vez, por que não gastar uma fração desse dinheiro numa máquina de lavar automática, ou em um sistema que liga e desliga o ar-condicionado?”, questiona.

O raciocínio, infelizmente, tornaria inúteis alguns dos personagens mais queridos da ficção científica. “É muito caro fazer um robô R2-D2 que vai ajudá-lo a pilotar a sua nave. É muito mais barato fazer um computador de bordo muito sofisticado”, afirma Marco Antonio. Talvez George Lucas não tenha pensado nessa lógica ao criar os droides do universo de Guerra nas estrelas, assim como tantos outros autores que deixam de lado o realismo em função narrativa. Mas são justamente histórias como esta que até hoje alimentam a criatividade de pesquisadores e cientistas, e fazem surgir ideias que mudam para sempre a vida real.

Leis da robótica

Isaac Asimov cunhou as três leis que devem reger a robótica no conto “Runaround”, repetida na coletânea Eu, robô. As regras dizem que um robô não deve ferir um ser humano, ou deixar que uma pessoa de machuque por omissão; a máquina também deve obedecer às ordens dadas por qualquer humano, a não ser que elas entrem em contradição com a primeira lei; e os robôs também seriam obrigados a proteger a própria existência, contanto que a tarefa não seja um conflito às primeiras duas leis.

"Escravos"

O conceito de robôs surgiu na ficção, há quase um século. Em 1921, a peça tcheca de Karel Capék Rossum’s Universal Robots levou para os teatros a ideia de uma fábrica de seres humanos artificiais que trabalham como escravos – a palavra “robota”, que cunhou o termo, tem significado similar a “trabalho forçado”. Essas máquinas só passariam a fazer parte da realidade na década de 1950, quando os “escravos robóticos” foram reduzidos aos braços mecânicos adotados pela General Motors nas linhas de montagem de automóveis.

Fonte: Pernambuco.com

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