sábado, 5 de maio de 2012

"Tapacurá Estourou!"


Desde 1632, a história registra grandes enchentes em Pernambuco. Umas de maiores, outras de menores proporções, mas todas causando muitos danos à população. Depois das de 1970, houve pressão para que os governos estadual e federal tomassem providências no sentido de proteger o Recife das cheias.

Uma das providências seria a construção de barragens. Em 1973, foi inaugurada a de Tapacurá e a população acreditava que apenas ela seria a solução para evitar as enchentes. Em 1975, para surpresa de todos, houve uma enchente que foi considerada a maior calamidade do século.

Aconteceu entre os dias 17 e 18 de julho, quando 80% da população do Recife ficaram debaixo d’água, 25 municípios da bacia do rio Capibaribe também foram atingidos, morreram 107 pessoas e outras milhares ficaram desabrigadas. Ferrovias foram destruídas, pontes desabaram, casas foram arrastadas pelas águas. Por terra, o Recife ficou isolado do resto do País durante dois dias.

Quando as águas começaram a baixar, as pessoas, fisicamente e psicologicamente fragilizadas, foram aos poucos avaliando os prejuízos e retomando suas vidas. Foi nesse cenário que, por volta das 10 horas da manhã do dia 21 de julho, surgiu o boato de que a barragem de Tapacurá (que tem capacidade para acumular 94 milhões de metros cúbicos de água e nada sofrera com a enchente) havia estourado e que a cidade seria destruída pelas águas em poucas horas.

“Tapacurá estourou!” O alarme anônimo provocou pânico em toda a cidade e o Recife enlouqueceu. O grito ecoou de boca em boca, começou a correria de um lado para outro em busca dos parentes e amigos para fugirem ou morrerem juntos. Motoristas gritavam para os pedestres: “Fujam! A barragem estourou!” Algumas pessoas corriam no sentido cidade-subúrbio, outros no sentido subúrbio-cidade. Uns subiam em árvores, outros subiam até os últimos andares de edifícios, grande parte simplesmente abandonava os postos de serviços em comércio, escritórios e até bancos. Lojas, colégios e repartições públicas ficaram vazias.

A rua do Hospício virou realmente um verdadeiro hospício. Filas de ônibus desmanchavam-se. Homens e mulheres abandonavam o posto da Previdência Social, onde aguardavam atendimento e, ainda com cartões de identificação nas mãos, atropelavam-se nas escadarias dos edifícios próximos na tentativa de encontrar um lugar seguro.

Carros trafegavam em velocidade na contramão. Ônibus eram invadidos fora das paradas por aflitos fugitivos, ao mesmo tempo em que passageiros apavorados saltavam pelas janelas. Mulheres em pleno ataque de nervos gritavam de mãos estendidas para o alto. “Salve-se quem puder!”.

Na Avenida Caxangá, que se estende por sete quilômetros em paralelo ao rio Capibaribe, estava uma confusão geral. Milhares de pessoas corriam de um lado para outro, disputando lugar com os carros e ônibus. Muitos com faróis acesos e buzinando com estardalhaço tomavam o sentido inverso do tráfego.


Pedestres imploravam por carona, mesmo sem saber o destino do veículo, mas apenas para sair dali. Das ruas transversais saiam multidões alarmadas, gente carregando roupas, aparelhos de televisão, bujões de gás, colchões. A loucura era tal, que até doentes internados em hospitais abandonaram ambulatórios e enfermarias, alguns vestidos com os característicos camisolões, para se juntarem à massa em fuga.

Cleudson Barros de Oliveira, recém-chegado da cidade de Salvador-BA, estava trabalhando na Empresa Bonfim, que ficava na antiga Rodoviária, próximo ao viaduto das Cinco Pontas. Quando soube que Tapacurá havia estourado, correu juntamente com os colegas, para cima do viaduto, entretanto achando que o viaduto provavelmente cairia com a força das águas, resolveram descer. Pensando depois que poderiam morrer afogados, subiram novamente e assim ficaram subindo e descendo completamente desorientados.

Várias outras situações dramáticas aconteceram: a dona de casa Fátima Aleixo, residente na rua Francisco de Paula Machado, no Cordeiro, gritava por socorro, numa crise de histeria, enquanto todos da rua corriam sem olhar para trás; Joana Gomes de Andrade, com um pé descalço e o outro calçado e sua filha Carmelita, com a roupa que estava lavando na mão, também corriam, assim como Dora, com uma caixa de mantimentos que acabara de comprar, na cabeça. Era uma questão de vida ou morte, corria-se com o que estava ao alcance das mãos ou com o que se estava na mão. Não havia tempo para raciocínio lógico.

O governador do estado, José Francisco de Moura Cavalcanti, em seu gabinete, cuidava das ações de assistência aos municípios em que ele decretara estado de calamidade pública em consequência das inundações. Quando soube da notícia, convocou o coronel Geraldo Pereira de Lima, chefe da Casa Militar, para saber o que estava havendo.

Feita a comunicação com a administração da barragem, constatou-se que a situação era normal. O governador dirigiu-se para o meio da confusão, em frente ao Diretório Central dos Estudantes, na rua do Hospício. Os estudantes choravam, agitados. O governador disse a eles que a notícia da barragem não era verdadeira, que se Tapacurá houvesse estourado ele não estaria ali naquele momento. Os estudantes se acalmaram e tomaram as ruas gritando para o povo que a notícia sobre o estouro de Tapacurá era falsa, que era boato, que estava tudo bem.

Mas, somente após os insistentes boletins divulgados pelas emissoras de rádio e televisão, alguns feitos pelo próprio governador desmentindo o boato, a vida da cidade reordenou-se aos poucos.

Hoje, a história da barragem de Tapacurá parece coisa de folclore. As pessoas que viveram aquele acontecimento, no entanto, quase sempre têm uma história tragicômica para contar.

Fonte: Fundaj

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