sexta-feira, 3 de abril de 2009

Papo Cabeça


Conversa de duas Criancinhas

– E aí, véio?

– Beleza, cara?

– Ah, mais ou menos. Ando meio chateado com algumas coisas.

– Quer conversar sobre isso?

– É a minha mãe. Sei lá, ela anda falando umas coisas estranhas, me botando
um terror, sabe?

– Como assim?

– Por exemplo: há alguns dias, antes de dormir, ela veio com um papo doido
aí. Mandou eu dormir logo senão uma tal de Cuca ia vir me pegar. Mas eu nem
sei quem é essa Cuca, pô. O que eu fiz pra essa mina querer me pegar? Você
me conhece desde que eu nasci, já me viu mexer com alguém?

– Nunca.

– Pois é. Mas o pior veio depois. O papo doido continuou. Minha mãe disse
que quando a tal da Cuca viesse, eu ia estar sozinho, porque meu pai tinha
ido pra roça e minha mãe passear. Mas tipo, o que meu pai foi fazer na roça?
E mais: como minha mãe foi passear se eu tava vendo ela ali na minha frente?
Será que eu sou adotado, cara?

– Sabe a sua vizinha ali da casa amarela? Minha mãe diz que ela tem uma
hortinha no fundo do quintal. Planta vários legumes. Será que sua mãe não
quis dizer que seu pai deu um pulo por lá?

– Hmmmm. Pode ser. Mas o que será que ele foi fazer lá? VIXE! Será que meu
pai tem um caso com a vizinha?

– Como assim, véio?

– Pô, ela deixou bem claro que a minha mãe tinha ido passear. Então ela não
é minha mãe. Se meu pai foi na casa da vizinha, vai ver eles dois tão de
caso. Ele passou lá, pegou ela e os dois foram passear. É isso, cara. Eu sou
filho da vizinha. Só pode!

– Calma, maninho. Você tá nervoso e não pode tirar conclusões precipitadas.

– Sei lá. Por um lado pode até ser melhor assim, viu? Fiquei sabendo de umas
coisas estranhas sobre a minha mãe.

– Tipo o quê?

– Ela me contou um dia desses que pegou um pau e atirou em um gato. Assim,
do nada. Puta maldade, meu! Vê se isso é coisa que se faça com o bichano!

– Caramba! Mas por que ela fez isso?

– Pra matar o gato. Pura maldade mesmo. Mas parece que o gato não morreu.

– Ainda bem. Pô, sua mãe é perturbada, cara.

– E sabe a Francisca ali da esquina?

– A Dona Chica? Sei sim.

– Parece que ela tava junto na hora e não fez nada. Só ficou lá, paradona,
admirada vendo o gato berrar de dor.

– Putz grila. Esses adultos às vezes fazem cada coisa que não dá pra
entender.

– Pois é. Vai ver é até melhor ela não ser minha mãe, né? Ela me contou isso
de boa, cantando, sabe? Como se estivesse feliz por ter feito essa
selvageria. Um absurdo. E eu percebo também que ela não gosta muito de mim.
Esses dias ela ficou tentando me assustar, fazendo um monte de careta. Eu
não achei legal, né. Aí ela começou a falar que ia chamar um boi com cara
preta pra me levar embora.

– Nossa, véio. Com certeza ela não é sua mãe. Nunca que uma mãe ia fazer
isso com o filho.

– Mas é ruim saber que o casamento deles é essa zona, né? Que meu pai sai
com a vizinha e tal. Apesar que eu acho que ele também leva uns chifres,
sabe? Um dia ela me contou que lá no bosque do final da rua mora um cara,
que eu imagino que deva ser muito bonitão, porque ela chama ele de 'Anjo'.. E
ela disse que o tal do Anjo roubou o coração dela. Ela até falou um dia que
se fosse a dona da rua, mandava colocar ladrilho em tudo, só pra ele pode
passar desfilando e tal.

– Nossa, que casamento bagunçado esse. Era melhor separar logo.

– É. só sei que tô cansado desses papos doidos dela, sabe? Às vezes ela fala
algumas coisas sem sentido nenhum. Ontem mesmo veio me falar que a vizinha
cria perereca em gaiola, cara. Vê se pode? Só tem louco nessa rua.

– Ixi, cara. Mas a vizinha não é sua mãe?

– Putz, é mesmo! Tô ferrado de qualquer jeito...

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